O Brasil ocupa uma posição de destaque no cenário global do agronegócio, sendo um dos maiores exportadores de commodities agrícolas como soja, milho, carne bovina e café. Representando cerca de 27% do Produto Interno Bruto (PIB) e responsável por gerar mais de 10 milhões de empregos diretos (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil – CNA, 2024), o setor agropecuário é um pilar fundamental da economia brasileira.
No entanto, mesmo com sua relevância econômica, o agronegócio enfrenta desafios que estão forçando um número crescente de empresas e produtores a recorrerem à recuperação judicial como uma medida para reestruturar suas dívidas e garantir a continuidade das operações. Secas prolongadas, volatilidade cambial, aumento nas taxas de juros e, mais recentemente, mudanças climáticas têm criado um cenário de pressão sobre os players do setor.
Este artigo apresenta uma análise detalhada do impacto da recuperação judicial no agronegócio brasileiro, abordando suas causas, processos, casos emblemáticos e perspectivas futuras.
Recuperação judicial é um mecanismo jurídico previsto na Lei nº 11.101/2005, que permite a empresas em dificuldades financeiras superar a crise por meio de uma reestruturação negociada de suas dívidas, preservando empregos e garantindo o funcionamento da atividade econômica. Em 2021, a Lei nº 14.112/2020 trouxe mudanças importantes, aumentando a eficiência e a acessibilidade do processo, com destaque para empresas do agronegócio.
No setor agropecuário, a recuperação judicial apresenta peculiaridades significativas:
A maior particularidade, porém, está na possibilidade de pessoas físicas (como produtores rurais individuais) requererem recuperação judicial. Em 2019, o Supremo Tribunal de Justiça (STJ) decidiu que produtores rurais pessoas físicas poderiam se beneficiar da recuperação judicial, desde que comprovem a prática habitual de atividade econômica e apresentem registros contábeis que atestem o exercício empresarial da atividade.
Nos últimos anos, o agronegócio brasileiro foi marcado por diversos casos emblemáticos de recuperação judicial, destacando as fragilidades e desafios do setor.
Localizada no Mato Grosso do Sul, a Usina São Fernando, produtora de etanol e açúcar, solicitou recuperação judicial em 2017, com dívidas de aproximadamente R$ 1,3 bilhão. Entre os principais desafios enfrentados estava a dificuldade em renegociar contratos com credores e encontrar um investidor disposto a aportar capital na empresa. Em 2023, após quatro anos, um plano de venda foi aprovado, permitindo a continuidade parcial das operações.
Outro caso significativo foi o da JP Gado, uma grande empresa do setor pecuário localizada em Goiás, que solicitou recuperação judicial em 2022. A empresa justificou o pedido com dificuldades no financiamento de insumos devido à alta das tarifas de importação de grãos para ração. Apesar de uma renegociação de parte das dívidas com fornecedores e credores bancários, a recuperação judicial levou a um enxugamento operacional, impactando fornecedores locais.
Embora não diretamente agropecuária, a Eldorado Celulose, cujas operações são intrinsecamente ligadas ao cultivo de florestas plantadas, enfrentou processos de recuperação judicial devido à instabilidade no setor de celulose. O processo demonstrou a importância de planejamento estratégico e diversificação de produção no agronegócio.
Para entender as razões que levam empresas agropecuárias à recuperação judicial e as estratégias para superação, conversamos com diversos especialistas e analisamos estudos acadêmicos recentes.
Segundo Renata Oliveira, advogada especializada em direito agroempresarial, as principais causas das dificuldades financeiras no setor incluem:
Para João Medeiros, consultor financeiro especializado em agronegócio, a recuperação judicial no setor pode ter sucesso quando associada a:
O agronegócio tem um peso significativo nas economias das regiões onde operam grandes produtores e cooperativas. Processos de recuperação judicial podem ter efeitos tanto positivos quanto negativos no curto e no longo prazo.
Cada vez mais, produtores estão sendo incentivados a adotar práticas ambientais mais sustentáveis, como agricultura regenerativa e mitigação de gases de efeito estufa, como forma de garantir novos financiamentos.
A digitalização do agronegócio, com o uso de tecnologias como inteligência artificial para prever padrões climáticos e otimizar decisões de plantio, também desempenhará um papel fundamental na resiliência das empresas.
A recuperação judicial no setor agropecuário é uma ferramenta essencial para preservação de empresas e manutenção da economia local, especialmente diante dos desafios do atual cenário global. Contudo, o êxito desse processo depende de:
Ao entender as causas, particularidades e impactos das recuperações judiciais no agronegócio, é possível criar um ambiente econômico mais sustentável e resiliente para produtores e toda a cadeia agropecuária.
Fontes: Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Relatórios setoriais. Brasília, 2024. / Supremo Tribunal Federal. Decisão REsp 1.800.032, 2019. / Banco Central do Brasil. Relatórios de crédito rural e financiamentos, 2025. / Oliveira, Renata. “Impactos Jurídicos no Agronegócio Brasileiro.” Revista de Direito Econômico, 2024. / Medeiros, João. “Estratégias de Recuperação no Setor Agropecuário.” Seminário AgroBrasil, 2023.